Depois de ser considerada morta pelos especialistas, a reunião do Clima, em Copenhague, no próximo dia 9, parece que respira por aparelhos. Ainda não desencarnou.
O presidente dos EUA, Barack Obama, anunciou ontem que seu País tem a meta de reduzir as emissões de gases que afetam o clima em 17% em comparação com 2005, data-base utilizada por Washington; a maioria das nações se pauta por 1990. Levando em conta esta última data, a redução é de apenas 5,5%.
Excluindo o ano escolhido, a meta determinada por Obama é muito tímida para as responsabilidades americanas nesse tema. Há um retrocesso até em relação ao Protocolo de Kyoto (1997), ainda na administração Clinton (1993-2001). O pedido da comunidade internacional para as nações industrializadas, encabeçadas pelos EUA, seria de um corte de 25 a 40% das emissões de gases poluentes. Nem de perto foi o que Obama fez.
O ministro do desenvolvimento sueco, Anders Carlgren, foi bastante sensato. “Sem China e EUA [os dois maiores poluidores do mundo] apenas metade das emissões mundiais estarão resolvidas.” Apesar de tudo, líderes ambientalistas elogiaram a presença de Obama na Dinamarca e suas metas para 2025, corte de 30%, e 2030, redução de 42%.
O premiê dinamarquês Lars Rasmussen, o mesmo que ajudou a esvaziar a cúpula ambiental, agora tenta retomar as conversas. Claro, por causa da presença de Obama. Mas a situação não é tão fácil.
Congressistas americanos já declararam que eles é que irão aprovar ou não algum corte na emissão de gases. Ou seja, são mais importantes do que os fóruns internacionais.
Ironia do destino, no dia 8, 24 horas antes da Cúpula de Copenhague, o democrata vai a Oslo receber o Nobel de Paz. Um dos motivos para sua vitória foram as promessas ambientais. Ironia do destino.
A atual diplomacia brasileira falha e acerta em alguns pontos, como de costume. O acerto é mais na visão deste colunista do que um consenso. A falha, por outro lado, é bem claro a todos.
O acerto vem com a escolha de receber o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, apesar de todas as críticas que o Itamaraty sofreu nas últimas semanas. Trata-se de um líder extremamente polêmico, mas que deixado de lado pela comunidade internacional, pode tornar-se bem mais perigoso.
Já no erro, Brasília está vendo ruir sua meta de, simbolicamente, ver Manuel Zelaya de volta à Presidência de Honduras, mesmo que para transferir a faixa para seu sucessor. A teimosia em condenar o golpe dentro de um golpe mostrou-se falha. Queiram ou não, a situação começou a ser normalizada quando Washington entrou na parada e decidiu que as eleições aconteceriam como o programado, em 29 de novembro.
A chancelaria brasileira pensou que Tegucigalpa e as pizzas encomendadas por “Mel” Zelaya seriam o início de sua virada diplomática. Parece que Brasília vai ser acompanhada por “bolivarianos” e afins. Poderia ser bem melhor.
Crítica
O assessor do presidente Lula para Assuntos Internacionais, Marco Aurélio Garcia, criticou a postura do governo Obama diante de questões relevantes para o continente, principalmente Honduras e as bases militares da Colômbia.
Garcia foi o mesmo que fez o “top, top, top” ao saber da suposta isenção de culpa do governo no maior na queda do avião da TAM em Congonhas, no maior acidente da aviação brasileira, que deixou pelo menos 197 mortos, em julho de 2007. Depois desta atitude sórdida, penso que ele não tem direito a criticar ninguém. Fora que seus conselhos ao nosso presidente são bastante questionáveis. Lula, cuidado, companheiro!

Pausa sobre a visita de Ahmadinejad no Brasil. Hoje vou comentar sobre a escolha dos novos “poderosos” da União Europeia (UE): Herman Van Rampuy e Catherine Ashton, respectivamente, presidente e chanceler do bloco. Os mandatos são de dois anos e meio, renováveis por igual período.
Rampuy, atual primeiro-ministro belga, foi escolhido, creio eu, por sua capacidade de “juntar os cacos de um vaso quebrado e reorganizá-los”. Foi assim que ele encontrou a Bélgica em dezembro do ano passado, quando assumiu o posto de chefe de governo. O território belga é marcado por profundas divisões entre flamengos – com predomínio da língua holandesa – e valões, que têm influência da França.
O premiê belga foi escolhido pelo rei Alberto II no lugar de Yves Leterme, que durou apenas nove meses. Aliás, a instabilidade governamental tornou-se uma característica da Bélgica. Foram 12 anos com 9 governos diferentes.
Pois bem. Rampuy, sem grande expressividade internacional, foi agraciado pelos colegas europeus com o cargo de presidente da UE por saber tratar de fissuras políticas, quadro perfeito para a atual situação do Velho Mundo. Hoje, praticamente não há consenso em nada na UE.
A crítica feita até aqui é que o belga não é forte o suficiente para agüentar a pressão do cargo. Tony Blair, apesar de todas as bobagens feitas, é um nome com mais impacto na comunidade internacional, não tenham dúvida. Só nos resta torcer para o experiente Rampuy, que já exerceu quase todos os cargos governamentais em seu país, realizar um bom mandato à frente do maior PIB coletivo do planeta.
No campo das Relações Internacionais, a britânica Catherine Ashton, atual comissária de comércio da UE, será a chanceler e responsável pela Defesa. Ashton, assim como Herman Rampuy, é um nome forte nacional, mas ainda não despontou para fora de suas fronteiras. É elogiada por seu trabalho, mas ainda sofre resistência por não ter a “estrela” de Peter Mandelson, seu antecessor que se destacou no período à frente da pasta. Como representante do bloco no exterior, Ashton terá que ser bem mais presente aos holofotes do que faz atualmente. Ashton pode ter melado a candidatura Blair, já que seria inviável politicamente os dois principais cargos da EU nas mãos de um mesmo país. Com a escolha de Ashton, Blair ficou fora do jogo. A atual comissária de comércio trabalhou em várias funções no gabinete de Tony Blair quando este foi primeiro-ministro (1997-07).
Nos bastidores da UE fala-se em um acordo informal entre Alemanha e França, as duas maiores economias da região. Com nomes relativamente tímidos para postos-chave como os citados, Berlim e Paris esperam emplacar figuras de seu agrada para vagas estratégicas, principalmente na área das finanças e na presidência do Banco Central Europeu. Vamos aguardar.
Os eleitos tomam posse em 1/1/2010, já como forma de implementação do Tratado de Lisboa, acordo feito entre os países da EU para um melhor funcionamento e posicionamento do bloco em questões importantes da região e do mundo. Para saber mais sobre o Tratado, ver a coluna do dia 3/11: http://planetapolitica.zip.net/arch2009-11-01_2009-11-07.html
Depois de muita polêmica, chega hoje (23/11) ao Brasil o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad. O chefe de governo persa já fez diversas declarações controversas e totalmente infundadas como “o Holocausto não existiu” e “deveriam varrer Israel do mapa”.
Lula, ao receber Ahmadinejad, mostra que quer trazer às mesas diplomáticas todos os atores importantes do cenário político internacional. Nesse caso, Ahmadinejad, apesar de tudo, se encaixa no perfil. Portanto, deve-se negociar com ele
Teerã tem um poder nuclear ainda desconhecido, mas as últimas análises mostram que pode levar mais alguns anos para o Irã incomodar de fato o resto do planeta, sobretudo Israel.
A visita de Mahmoud Ahmadinejad tem um forte apelo político-econômico. No ano passado, segundo a Agência Brasil, Brasília foi o 8º maior parceiro comercial dos persas, com 1,8 bi de dólares em exportações; já Teerã vendeu 14 milhões de dólares para nós, ou seja, um amplo déficit.
Ahmadinejad tenta equilibrar essa balança comercial, pois a missão iraniana quer aumentar os investimentos no Brasil, principalmente na área energética. O líder iraniano, nas entrelinhas diplomáticas, quer uma reunião com Lula – um dos líderes mais populares do mundo – para legitimar suas ambições nucleares, o que parece que o petista irá concordar.
O presidente iraniano, depois do Brasil, vai para Bolívia e Venezuela, os dois principais aliados de Teerã na região, para “reforçar a amizade dos povos revolucionários”, sobretudo contra os EUA. A tour latina dos persas promete.

Chegou ontem ao Brasil (19/11) o presidente da Autoridade Palestina (AP), Mahmoud Abbas. Bem ao seu estilo, discreto, vem em missão de conquistar o apoio do presidente Lula – o líder mundial do momento – na questão da criação do Estado Palestino.
Segundo a agenda oficial, Abbas deverá permanecer apenas em Salvador, onde participará de um almoço ao lado de Lula e do governador baiano, Jacques Wagner. Não me perguntem o motivo da escolha da Bahia como local do encontro. Talvez para acalmar os ânimos, tanto de Lula quanto de Abbas.
A comunidade internacional se viu em xeque quando o presidente da AP declarou que não tem a intenção de concorrer à reeleição de janeiro próximo, dado o total fracasso das negociações com Israel e seu fraco desempenho político interno. Com isso, o Ocidente perderia um candidato moderado e poderia dar lugar a outro com um discurso mais radical, como o Hamas. O trabalho nos bastidores para tentar reverter a decisão de Abbas já começou, e ele já não afasta a hipótese de disputar o cargo.
Mahmoud Abbas surpreendeu a comunidade internacional ao declarar que “iria se empenhar para a criação do Estado Palestino, mesmo que unilateralmente, dada a pouca de Israel em colaborar com o processo”. Os israelenses já reclamaram e o premiê Netanyahu disse que “atos unilaterais podem gerar reações unilaterais”. Isso quer dizer mais conflitos na região, como o de dezembro / janeiro desse ano. Quase nenhum país – exceto alguns árabes – apoiou a iniciativa da AP.
O presidente Lula demonstra cada vez mais que quer participar ativamente dessas negociações. Recebeu Shimon Peres na semana passada e agora Abbas. Na maioria das vezes, tem se demonstrado mais pró-palestinos, mas como tudo na política, o discurso pode mudar.
Top News
A estratégica viagem de seis dias de Barack Obama pela Ásia está chegando ao fim. Hora de voltar para casa. Hoje (19/11), o presidente dos EUA encontra-se com o colega sul-coreano Lee Myung-bak, conservador que endureceu bastante o diálogo com os vizinhos do Norte, mas ao que tudo indica voltará aos poucos às negociações.
O democrata passou por Japão, Cingapura, China – parte da viagem que durou três dias - e Coreia do Sul. Analistas, antes mesmo de Obama sair em turnê, já apontavam da forte possibilidade dos encontros com asiáticos transformar-se em fracassos diplomáticos. Parece que não estavam tão errados.
Mesmo se auto-proclamando com um “presidente do Pacífico”, já que foi passou boa parte de sua vida na Indonésia – nação com maior população muçulmana do mundo – parece que Barack Obama não sensibilizou muito os locais. No Japão, a aliança com os nipônicos não é como de outros tempos; com a China, a maior força do planeta depois de Washington, não conseguiu o compromisso das autoridades de Pequim sobre questões econômicas importantes, como a taxa de câmbio.
O jornal Washington Post indicou que em Seul, Obama “encontraria o clima mais tranqüilo de sua viagem pela Ásia”. Os dois presidentes chegaram a um ponto comum com relação à Coreia do Norte: as conversas precisam continuar, mesmo que em níveis extra-oficiais. O assunto Irã não entrou na pauta, mas pelos corredores da Casa Branca a ideia de que “o tempo está se esgotando” para os persas ganha força. E Ahmadinejad desembarca por aqui na 2ª.feira (23/11). Vamos aguardar o que vem pela frente.
Depois de comemorarem os 20 anos da queda do Muro de Berlim, os líderes mundiais deram, novamente, provas de que não estão levando a sério alguns problemas do mundo. Um dos principais, o aquecimento global, definitivamente entrou no “banho-maria” das conversas internacionais.
Em sua viagem à Ásia, Barack Obama levou a crer que as discussões seguirão para o próximo ano. Ou seja, a Conferência de Copenhague, a ser realizada no próximo dia 7, ficará totalmente esvaziada, como boa parte da imprensa mundial já havia alertado. Imprensa que nos encheu de tantas notícias negativas sobre o tema que é muito difícil não ter contaminado os ânimos dos negociadores. É bom sempre lembrar que EUA e China são os maiores poluidores do nosso Planeta Política.
A agenda ambiental do mundo parece estar entrando na fase do piloto automático: sem grandes avanços ou comprometimentos, apenas respeitando as datas de reuniões meramente protocolares. E isso, no estágio em que se desenvolve o aquecimento global, não é uma boa ação.
O presidente Lula e o francês Nicolas Sarkozy já concordaram em apresentar uma proposta conjunta sobre a questão e cobrar seus colegas sobre um maior comprometimento. Obama até tem vontade de se envolver no assunto, mas o forte lobby industrial americano ainda o impede de avançar. Os chineses dificilmente irão trocar duas décadas de crescimento econômico vertiginoso por energias limpas. Novamente, it’s all about money.

Caros leitores, não poderia iniciar a semana sem falar do giro mais que estratégico de Barack Obama no continente mais dinâmico do planeta, a Ásia.
O democrata começou sua viagem de negócios no mais tradicional aliado da região, o Japão. Com a eleição de Yukio Hatoyama (centro-esquerda) para premiê, Washington percebeu que teria de cativar mais os japoneses. A nova administração nipônica foi eleita com discurso de “revisão nas relações com os EUA” e isso implicaria nas bases de Okinawa, que a Casa Branca mantém desde 1945.
Logo ao chegar a Tóquio, Obama deixou claro que quer preservar a estratégica aliança com a 2ª maior economia do mundo (não por muito tempo, pois a China está chegando com tudo). Isso foi dito também para acalmar o Japão, que pressente que os EUA deem as costas para ele e passe a “namorar” os eternos rivais chineses.
O gigante vermelho
Barack Obama chegou ontem (15/11) à China, em sua primeira viagem oficial à economia mais dinâmica do mundo das últimas duas décadas. Os interesses são em todos os campos possíveis. Para se ter uma ideia, caro leitor, o comércio envolvendo as duas nações está na faixa dos US$ 408 bi, mais que o dobro de todas as exportações brasileiras no ano passado. Os dados são do FMI.
Obama chega querendo estabelecer um novo patamar nas relações Washington-Pequim, principalmente na sensível questão da valorização do Yuan (moeda chinesa), que tende a ficar sub-valorizado, o que estimula exportações chinesas e inunda o mercado americano com produtos made in China.
Os sindicatos americanos – base de apoio do democrata – começam a questionar a política do presidente para salvar os empregos perdidos para chineses. O comércio é amplamente favorável a Pequim, que tem um saldo de US$ 338 bi contra 70 bi de Washington. A pressão é grande e Obama terá que resolver o problema rapidamente, pois as críticas tendem a aumentar.
Assuntos como direitos humanos e acordos climáticos dificilmente farão parte da agenda de Obama e seu colega Hu Jintao, mesmo que estas sejam também de vital importância. O dinheiro, como sempre, fala mais alto.
Depois de Pequim, Obama vai para a eletrizante Xangai e segue para Cingapura e Coreia do Sul, esta também com o intuito de firmar os laços contra o beligerante vizinho do norte.
O português Henrique Cynerman, jornalista ganhador de vários prêmios internacionais, incluindo Jornalista do ano na Espanha e Pulitzer do mundo hispânico, deu uma palestra para cerca de 10 colegas de imprensa e mais a diretoria do Diário do Comércio na sede do jornal, no centro de São Paulo.
Cynerman, que trabalha para a TV Antena 3 (Espanha) e é comentarista da BBC sobre Oriente Médio, é correspondente no Oriente Médio desde o início da década de 90 e veio ao Brasil com a comitiva do presidente Shimon Peres.
Cynerman disse, entre outras inúmeras coisas, que “a região menor que o Sergipe é a Disneylândia dos jornalistas internacionais”. O número de correspondentes lá, segundo ele, é de 1.500 profissionais. Citou também que o fundador do Estado de Israel, Davi Ben Gurion, falou que o local tem “pouca geografia para muita história”.
Cynerman foi bem enfático ao defender a moderação nas negociações entre palestinos e israelenses e defendeu o trabalho do presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, e seu primeiro-ministro, Salam Fayad. “São tecnocratas que são os responsáveis por crescimento de 7% ao ano na região.”
O repórter chegou a entrevista o líder palestino Yasser Arafat, morto em 2004, e disse que o ex-presidente da AP era ingênuo com relação as suas companhias, fator que foi determinante para a vitória do Hamas nas eleições legislativas de 2007. “Os palestinos estavam cansados da corrupção do Fatah [grupo secular o qual pertenceu Arafat e do atual presidente Abbas] e votaram em protesto no Hamas”. Hoje, a AP controla a Cisjordânia, que tem um crescimento econômico satisfatório, e o Hamas, a miserável Faixa de Gaza, zona de maior densidade populacional do planeta.
Sobre a cobertura da imprensa, Henrique Cynerman criticou o espetáculo midiático que algumas redes fazem – “uma câmera é tão letal quanto um tanque de guerra” – e pediu atenção para os jornalistas especializados no assunto. “Deixem claro quando é informação ou opinião”, disse ele. “A importância da mídia é tão importante hoje que comandantes militares dos dois lados são constantemente assessorados por especialistas da área [midiática].”
Ainda lembrou que na Faixa de Gaza é o único lugar do mundo em que o jornalista necessita de tratamento psicológico após fazer seu trabalho.
Sobre as mortes, concluiu que do lado palestino, desde 1948 (fundação de Israel), morreram 68 mil pessoas; do lado judeu, 24 mil. Não foram tantas mortes assim, já que há conflitos que mataram isso praticamente por dia – o Sudão é um caso esquecido pela imprensa -, mas os sentimentos são bem mais aflorados nessa região do mundo, onde as três mais antigas religiões monoteístas do mundo – judaísmo, islamismo e cristianismo – se encontram.
Finaliza com uma frase célebre que Cynerman citou em sua apresentação. “Fui um dos últimos a entrevistar o ex-premiê Yitzhak Rabin [morto por um judeu radical em 95] e ele me disse que um dia teve um sonho: havia encontrado Deus e perguntou se a paz com os palestinos seria conseguida em sua gestão. ‘Yitzhak, meu filho, acho que a paz não será conseguida nem na minha gestão’”.
Novamente as declarações inflamadas do presidente venezuelano Hugo Chávez trazem instabilidade à América do Sul. Essa semana, Chávez instou seu compatriotas para “se prepararem para a guerra, pois o conflito com o inimigo [Colômbia] é iminente”.
O tom do discurso do bolivariano não é novo, mas a preparação para a guerra, sim. Caso fosse um ator geopolítico muito relevante, sua fala já teria causado enormes consequencias comunidade internacional. Todavia, o venezuelano é muito importante regionalmente, pois o único país que realmente não dialoga com ele é a Colômbia, de Álvaro Uribe, fiel aliado – e talvez único no subcontinente – de Washington.
O presidente Lula tem um papel importante nesse cenário: estabelecer um canal aberto de relações entre a América do Sul e o mundo desenvolvido, já que é muito bem visto externamente. Assim, poderia de certa forma “domesticar” Chávez para as ambições latinas no mundo desenvolvido, porque dificilmente a Aliança Bolivariana para as Américas (Alba) conseguirá grandes voos.
Bogotá já demonstrou que está disposta a retomar as conversas com Caracas, mesmo esta se mostrando bastante reticente em aceitar a reaproximação.
O estranhamento entre Chávez e Uribe é antigo, mas se aflorou quando forças colombianas mataram em março do ano passado guerrilheiros colombianos em território equatoriano, nação amiga bolivariana. Após o rompimento diplomático entre Bogotá e Quito, a rivalidade Chávez x Uribe apenas aumentou, sendo que a instalação das bases militares americanas em solo da Colômbia foi um fator agravante. Rafael Correa (presidente do Equador) e Álvaro Uribe, de certa forma, descongelaram o diálogo e mantém relações, mesmo que tímidas.
Chávez não gosta de ver algum representante do “império” em sua órbita de influência, que talvez não atinja Brasil, Chile, Peru, Uruguai e, claro, Colômbia. Bolívia, Equador e Argentina estão com ele.
Talvez seja a hora de uma reunião da Unasul e colocar na agenda uma conversa franca com Hugo Chávez. A pergunta é: será que ele vai mudar?
Prometem ser bastante movimentados os próximos dias da agenda diplomática brasileira. Chega hoje (10/11) ao nosso País o presidente de Israel, Shimon Peres, uma das poucas vozes sensatas no emperrado diálogo com os palestinos. Shimon, do tradicional Partido Trabalhista (centro-esquerda), já teve momentos mais relevantes na política israelense, como quando assumiu o cargo de premiê depois do assassinato de Yitzhak Rabin (1995), primeiro-ministro de Israel que selou o acordo de Paz de Oslo, em 1993, mediado por Bill Clinton, com um aperto de mãos com o líder palestino, Yasser Arafat.
Como presidente, Peres tenta retomar seu prestígio internacional mesmo que sua função não permita grande coisa, já que quem manda mesmo em Israel é o primeiro-ministro, hoje Binyamin “Bibi” Netanyahu, do Likud (direita). E “Bibi” não é do tipo que irá fazer grandes concessões aos palestinos, já demonstrando isso com palavras e atos – assentamentos, por exemplo.
Todavia, a questão palestina ficará para escanteio na missão diplomática israelense – 40 pessoas são esperadas. Além assuntos econômicos, Shimon que convencer o presidente Lula a não cair na tentação de apoiar as ambições do presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, que tem visita confirmada a terras tupiniquins entre os próximos dias 23 e 26 (não vou apontar uma data já que o iraniano adora mudar sua agenda de última hora). O persa, além da Venezuela, quer mais aliados na América do Sul e Lula parece ser uma boa aposta, pois o brasileiro apoiou de imediato a conturbada reeleição de Ahmadinejad e o plano nuclear de Teerã.
Já na semana que vem, o presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas, chega ao País para convocar o presidente Lula a ser um dos mediadores do das conturbadas relações Israel-Palestina. Isso Lula com certeza quer, inclusive para depois de seu mandato. Abbas encontra-se fraco no cenário interno e já declarou que não vai concorrer a reeleição de janeiro, o que abre chances para candidatos com um discurso bem mais inflamado que o de Abbas.
O palestino acerta ao procurar líderes mundiais para tentar resolver o problema, mesmo que hoje ele, Abbas, seja um pouco mais do que um cadáver político. Infelizmente, pois tem um discurso moderado, palavra que tanto faz falta nessa região do Planeta Política.
O Brasil tem a grande chance de se mostrar importante ao cenário geopolítico do mundo, já não será sempre que pessoas importantes como estas citadas passarão por aqui em tão curto espaço de tempo. Aguardemos os passos de nossa diplomacia.
Estamos comemorando o aniversário de 20 anos da queda do Muro de Berlim, o evento histórico mais importante do final do século passado. A imprensa vem trazendo reportagens especiais sobre o tema e penso que é assim que deva proceder, já que é notória a relevância do fato.
Como o leitor já deve estar entupido de tanto material sobre o Muro, bem melhor que o meu, irei fazer uma análise e gostaria que acompanhasse meu raciocínio.
A divisão da capital alemã foi erguida por ordens do dirigente soviético Nikita Kruschev, em 1961, para separar realmente dois mundos, duas ideologias, mas que na verdade continham apenas seres humanos, todos iguais.
O planeta estava dividido e Berlim era o símbolo máximo da repartição do planeta. Na época do fim do comunismo, todos cantaram alegremente, subiram no concreto que representava a separação de famílias e gritavam a liberdade finalmente conquistada. Felicidade mais da parte oriental, diga-se de passagem. Os berlinenses ocidentais não estavam tão entusiasmados com o retorno de seus compatriotas orientais, já que previam uma invasão de mão-de-obra barata e consequentemente, a perda de seus empregos. Não estavam de todo errados.
A faixa comunista logo enxergava um horizonte lindo e social-democrata em seu futuro. Só não esqueceu de contar com as engrenagens do sistema capitalista, recomendadas apenas aos mais hábeis e espertos. Os filhos socialistas esperavam a liberdade e capital abundantes. No início, alguns países da esfera de Moscou até conseguiram – República Tcheca, Polônia e Hungria, por exemplo. Mas não foi assim com todos, e mesmo os exemplos citados tiveram quedas drásticas econômicas durante esses vinte anos.
Pesquisas feitas com moradores de nações da antiga órbita soviética mostram uma queda acentuada da satisfação da migração de socialismo para capitalismo. O desemprego é a principal questão. O crescimento econômico nem de longe foi o prometido pela “democracia ocidental”. Alguns saudosistas (?) sentem falta do apoio do velho Estado socialista e suas benfeitorias à população, como educação e saúde. Hoje, é cada por si e quase nenhum Deus para todos.
A pergunta que ronda minha cabeça nesses dias é será que foi bom ter caído o Muro? Claro, o simples ato de separar famílias por questões políticas é algo abominável. O Muro em era si um símbolo de um sistema decadente. Agora, o que quero realmente dizer é o fim da URSS foi proveitoso ao planeta? Acredito que hoje vivemos bem mais inseguros do que no passado. Uma frase bem batida nas análises internacionais: “O inimigo era conhecido e cada lado respeitava o oponente, como um meticuloso jogo de xadrez”. Hoje, não sabemos quem são realmente os inimigos. Neste caso, seja qual for o lado que cada um simpatizava ou ainda simpatiza, creio que a velha URSS faz falta. O leitor decide.
A Augusta da época
“Como estavam quentes aquelas tardes e noites de sábado. Era um grande verão, sem dúvida nenhuma.
Martim, Carlos, Rubens e eu gostávamos de passear por ela, a mais charmosa rua de São Paulo àquela época: a gloriosa Augusta. Claro que haviam as mulheres de vida fácil como hoje, mas até elas tinham muito mais charme do que suas sucessoras do prazer.
Não me recordo bem, mas acho que era final de outubro. O trabalho na loja de tecidos estava muito cansativo, com as máquinas esquentando um bafo em seu cangote que poucos agüentariam. Eu já estava desistindo. Mas como a vida pode ser boa, não é mesmo? Sábados maravilhosos com meus amigos! Não tínhamos muito dinheiro, então colaborávamos com o combustível da baratinha de Rubens, nossa salvação social, já que os peixões olhavam diferente para quem era motorizada. E não é assim até hoje?
‘Hoje quero ver muitas garotas’, disse Carlos em tom otimista. Não éramos galãs, mas também nada que se desprezasse. O plano era tentar falar com algumas pequenas e convidá-las para o Cine Majestic – Casablanca estava causando o maior furor entre todos e gostava muito de Bogart, também.
Fomos. Deus, que sábado maravilhoso. Bebemos alguma coisa antes de cair na caçada às mulheres. A baratinha de Rubens impressionava pelo seu motor e por sua cor vibrante – um vermelho chamativo.
Descemos a gloriosa Augusta e vimos três garotas conversando. Claro, fomos completar a conversa delas. Salve a baratinha de Rubens. Como era de praxe, ele ficou logo com a mais jeitosa – ele proporcionava a nossa diversão com o carro, então, nada mais justo. Martim e eu, como sempre, dávamos trela para as intermediárias. ‘E Carlos?’, vocês perguntam. Ele era compromissado com Amanda, que na ocasião estava trabalhando na farmácia do Sr Edgard, o mal humorado. Então, tudo certo com nós, as garotas e a nossa querida Augusta. Que saudades da Velha São Paulo!”
As coisas quase saíram do controle no nosso vizinho, o simpático Paraguai. O ex-bispo católico e atual presidente, Fernando Lugo, surpreendeu a todos ao demitir os chefes das Forças Armadas. Lugo afirmou que “alguns setores das Forças são conservadores e querem a quebra da ordem legal, mas não é o desejo da maioria”. Os substitutos foram empossados ontem (5/11).
O que achei curiosa foi a declaração do ministro do Interior do Paraguai, Rafael Filizzola, à agência Associated Press: “É impossível um golpe militar no País. Alguns quadros são nostálgicos ao passado de golpes, mas as Forças Armadas estão institucionalizadas agora”. Então porque Lugo demitiu as pessoas, a terceira mudança no corpo militar em 15 meses, tempo de seu mandato? A ameaça não é tão frágil assim.
O Paraguai viveu a ditadura mais longa do subcontinente, com 35 anos de governo de Alfredo Stroessner (1954-1989). Desde então, o País já sofreu com várias tentativas de desestabilização, principalmente por parte das Forças.
Outra explicação para um clima tenso em Assunção é o fenômeno Lugo. O presidente foi o responsável por interromper um ciclo de 61 anos de domínio do direitista Partido Colorado, hoje maioria no Congresso. Com isso, Fernando Lugo, eleito pela Aliança Patriótica – com uma ideologia de esquerda, mas que abriga figuras de direita – tem enfrentado dificuldades para impor sua agenda reformista aos paraguaios. Pesam ainda contra Lugo suas “declarações sociais inflamáveis” – que desagradam a elite Paraguai e não satisfazem a classe mais pobre – e os famosos casos de filhos não reconhecidos por Fernando ainda quando prestava serviços à Igreja Católica. Vale lembrar que desde que assumiu o cargo presidencial, o Vaticano excomungou o paraguaio.
Na última reunião da Alba (organização esquerdista liderada por Hugo Chávez), o líder venezuelano alertou contra “o perigo de setores ultra-direitistas que queriam forçar um golpe no Paraguai”. O serviço de inteligência bolivariano está ficando bom.
A preocupação agora é com a confiança de Fernando Lugo em suas Forças Armadas, essencial para um País que tem um forte passado de golpes militares

O pior emprego do mundo? Sem dúvida ser presidente dos EUA. O democrata Barack Obama já sabia disso, mas vai sentindo o calor dos acontecimentos em sua confortável poltrona na Casa Branca.
Obama tem vários problemas a serem resolvidos, tanto internos quanto externos. Hoje vou falar de três deles.
Começando pelas dores de cabeça próprias, o presidente não assistiu a um bom resultado das eleições estaduais, onde seus correligionários na Virgínia e em Nova Jersey foram derrotados pelos republicanos. Porém, os democratas conseguiram eleger um representante para um distrito nova iorquino, mesmo que o republicano / independente Michael Bloomberg tenha obtido o terceiro mandato à frente da Big Apple.
Assessores do presidente logo vieram a público dizer que os resultados não eram um teste à administração democrata. A fala não pareceu convencer muita gente em Washington. Torço por Obama, mas os americanos não estão satisfeitos com seu governo até aqui. A popularidade já está saindo da casa dos 50%, a queda mais rápida em mais de meio século.
Manifestações no Irã
Comemorou-se ontem, no Irã, os 30 anos da tomada da Embaixada americana em Teerã, fato crucial para o rompimento das relações EUA-Irã, e início da Revolução Islâmica. Na ocasião, estudantes iranianos – fiéis aos preceitos de do líder espiritual Ruhollah Khomeini – seqüestraram 52 pessoas na Embaixada por 444 dias. A partir daí, houve o congelamento total do diálogo Washington-Teerã, retomado fragilmente sob o governo Obama.
Nas manifestações de ontem, mais de 10 mil iranianos protestaram contra o “grande Satã” e surpreendentemente contra a Rússia, pois gritavam que “na Embaixada russa é onde estão os espiões mais perigosos”. A manifestação foi em razão de Moscou ter sido um dos primeiros a reconhecer o resultado da reeleição conturbada de Mahmoud Ahmadinejad, motivo dos piores confrontos em solo iraniano desde a Revolução de 79. Se a moda pegar, estamos fritos, já que Lula também foi um dos primeiros líderes mundiais a reconhecer a votação do Irã, chegando a classificar a situação local como briga de “Fla X Flu” em referência ao charmoso clássico carioca de futebol. Só falta abrigarmos alguém no Oriente Médio. Não basta Honduras e Mel Zelaya?
Os protestos foram de opositores do regime atual, mas também não simpáticos aos americanos, que tentam colocar Ahmadinejad de volta à mesa de negociações, o que parece cada vez mais complicado. O líder supremo, Ali Khamenei, disse essa semana que os EUA não vão liderar o Irã em questão alguma, principalmente a nuclear, temor do mundo dito civilizado.
América misteriosa
Por fim, por mais difícil que possa parecer, Hugo Chávez parece não estar totalmente por fora do Planeta Política. Um dos argumentos do bolivariano contra o acordo militar entre EUA e Colômbia era que “os ianques poderiam atacar a América do Sul quando bem entendessem”. Bogotá sempre negou a ideia, mas o Itamaraty também não engoliu as explicações do senhor Álvaro Uribe. Pois bem. Não é que foi divulgado o documento das sete bases militares e muitos pontos parecem bastante obscuros.
No escrito, o governo americano elogia a posição estratégica das bases, tanto para reabastecer suas tropas, quanto para logística. Nenhuma menção explícita sobre não intervir em territórios vizinhos – Equador e Venezuela – ficou clara. Soma-se a isso, o fato de que um militar americano ter vazado à imprensa esta semana que “as bases colombianas eram ótimas para conter governos antiamericanos na região”. Entende-se o nome de Hugo Chávez.
Tanto Obama quanto Uribe não souberam sair das acusações dos latinos. O Itamaraty nunca foi um fã das bases, mas depois de conversar com Bogotá, aceitou as explicações dadas.
O emprego de Obama não é o pior do mundo?
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